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04/07/2006 - 18h00

Scolari conta com "apostas" para bater França e fazer história

Da Redação
Em São Paulo
Exaltado e valorizado, o técnico brasileiro Luiz Felipe Scolari tem, nesta quarta-feira, às 16h, a missão de quebrar um tabu que já dura três décadas se quiser levar Portugal pela primeira vez a uma final de Copa do Mundo: vencer a França.

AS APOSTAS DE SCOLARI
AFPRicardo
Portugal queria Vitor Baía no gol, mas Scolari defendeu o arqueiro do Sporting, que acabou se consagrando na Euro 2004 e na Copa
EFEDeco
Nascido no ABC paulista, sua convocação gerou polêmica no país. Hoje, é unanimidade e titular absoluto
As duas equipes se enfrentam pela segunda semifinal da Copa do Mundo da Alemanha no estádio Allianz-Arena, em Munique, e disputam a vaga na decisão do torneio, que acontecerá no próximo domingo, contra a Itália. O retrospecto para a partida é amplamente favorável aos franceses: a última vez que o país de Zidane foi derrotado pelos lusos foi em 1975, em amistoso, em jogo que terminou 2 a 0.

"Por tudo o que já fez, os títulos que conquistou e mesmo pelas vitórias no passado sobre Portugal, a França é a favorita. Mas nem sempre os favoritos vencem", declarou Scolari.

"Os jogadores das duas equipes se conhecem muito, cada um sabe bem os pontos fortes e dribles dos outros. Todos sabem bem que ninguém é favorito", devolveu o técnico francês Raymond Domenech.

Desde 1975, foram sete partidas, com sete vitórias da França, sendo as mais importantes duas semifinais de Eurocopa. Para completar, no último duelo entre as equipes, a França sapecou 4 a 0 em cima dos portugueses, em 2001 - antes de Scolari assumir. Três jogadores da atual seleção francesa marcaram naquele dia: Sylvain Wiltord, Mikael Silvestre e Thierry Henry.

Para reverter o quadro desfavorável, Portugal conta com a estrela de Scolari. O brasileiro, por sua vez, deposita suas esperanças nas apostas que, apesar de amplamente criticadas quando feitas, se justificaram com o passar do tempo.

A primeira delas foi o goleiro Ricardo. Antes da Eurocopa de 2004, o país inteiro clamava pelo veterano Vítor Baía para defender a meta portuguesa. O goleiro do Porto havia sido campeão nacional e da Liga dos Campeões naquele ano, enquanto Ricardo havia protagonizado uma temporada irregular no Sporting.

OS ÚLTIMOS CONFRONTOS

ANOTORNEIORESULTADO
2001AmistosoFRA 4 x 0 POR
2000EurocopaPOR 1 x 2 FRA*
1997AmistosoPOR 0 x 2 FRA
1996AmistosoFRA 3 x 2 POR
1984EurocopaFRA 3 x 2 POR*
1983AmistosoPOR 0 x 3 FRA
1978AmistosoFRA 2 x 0 POR
1975AmistosoFRA 0 x 2 POR
1973AmistosoFRA 1 x 2 POR
1959AmistosoFRA 5 x 3 POR

* Na prorrogação

Mas Scolari comprou a briga - como é de seu costume - e se deu bem: Ricardo foi um dos heróis do vice-campeonato na Euro, especialmente nas quartas-de-final diante da Inglaterra, quando pegou o pênalti de Vassel e converteu a cobrança decisiva para selar a classificação.

A história se repetiu quase com o mesmo roteiro na Copa do Mundo da Alemanha. Nas quartas-de-final contra a Inglaterra, Ricardo defendeu nada menos do que três pênaltis - estabelecendo novo recorde em Copas - e assegurou a presença de Portugal entre os quatro melhores times do mundo.

Com a aposta em Ricardo, Scolari firmou uma marcante característica sua: a de romper com as convenções de onde trabalha. Foi assim na seleção brasileira em 2002, quando bancou a contestada presença de Marcos no gol e ainda barrou Romário, artilheiro do Brasileirão de 2001 e aclamado pela torcida e parte da imprensa. No Palmeiras, defendia o volante Galeano como um homem de sua confiança.

Em Portugal, causou grande polêmica ao convocar Deco, brasileiro naturalizado. Enfrentou resistência de parte da torcida, imprensa e inclusive de jogadores, principalmente de Luís Figo, que execrava a presença de um jogador nascido no Brasil na seleção lusa.

Mas Scolari não só dobrou Figo com relação a Deco como viu o jogador se convencer a voltar para a seleção de Portugal e assumir a tarja de capitão, voltando atrás na decisão que tomara ao término da Euro 2004 de abandonar a camisa grená.

Ao seu modo, Scolari transformou a seleção de Portugal em uma equipe coesa e vencedora, igualando a melhor campanha da história do país em Copas (a de 1966). Ganhou a confiança da torcida, da imprensa, dos jogadores e dos cartolas portugueses, que estão fazendo de tudo para manter o treinador no cargo até a Eurocopa de 2008. Mas o brasileiro já recebeu uma série de ofertas de emprego que podem dificultar a renovação.

Figo x Zidane
Os meio-campistas Figo e Zidane, símbolos de suas gerações, têm muito em comum. Além de liderarem as suas respectivas equipes em campo, ambos retornaram às seleções movidos pelo desejo de disputar uma última Copa do Mundo.

Enquanto Figo se animou com a boa campanha feita pela equipe lusa nas eliminatórias e afirmou sua volta um ano depois de anunciar a aposentadoria, Zidane foi praticamente aclamado para voltar a vestir a camisa azul da França.

ESTATÍSTICAS DOS CAPITÃES
Figo

Zidane

1,4Finalizações2
3,4Dribles4
38,4Passes47,8
1,6Lançamentos4,2
6,4Cruzamentos5,5
6Desarmes7,5
3,8Faltas recebidas2,8
41,6Bolas recebidas45,5
9Bolas perdidas4,8
1Cartões amarelos3
0Gols1
Os franceses passavam por maus bocados nas eliminatórias, e corriam o risco de perder a vaga na copa para Suíça, Irlanda ou Israel. Mas a volta de Zizou aos "Bleus" deu o gás e a técnica que faltavam para carimbar o passaporte para a Alemanha, aonde o craque selará sua aposentadoria definitiva - que pode vir ainda nesta quarta, caso receba cartão amarelo.

Zidane ainda deflagrou uma "onda" de retornos à seleção francesa. O zagueiro Lilian Thuram e o volante Claude Makelele, ambos titulares absolutos em suas posições, também voltaram à ativa pela equipe para jogar na Alemanha.

Além disso, Zizou e Figo foram objetos das contratações "galáticas" do Real Madrid, e foram companheiros de meio-campo no clube durante quatro temporadas. Figo inaugurou a política de contratações de peso do clube espanhol em 2000, ao se transferir do rival Barcelona para Madri, onde ficou até o ano passado. Já o francês foi contratado pelo clube em 2001, e só o deixou há dois meses, ao anunciar que vai parar de jogar.

Por fim, ambos realizam uma espécie de "volta por cima" na atual Copa. Portugal e França protagonizaram estrondosos fracassos na Copa de 2002, frustrando as grandes expectativas de suas torcidas ao cair ainda na primeira fase. Figo foi execrado na época, e Zidane, embora não tenha atuado nos dois primeiros jogos, carregou sua parcela de culpa. Mas em 2006, despertou na hora certa para reerguer a França no cenário mundial.

"É uma pena que jogadores como Zidane e Figo fiquem velhos", disse Scolari a respeito da aposentadoria dos dois de suas seleções. "Eu queria vê-los jogando por mais sete, oito ou 15 anos. A bola não chora nos pés deles. Quando eu jogava, eu fazia a bola chorar", destacou o técnico, que era um zagueiro do estilo "xerifão".

Ascensão francesa
Se Portugal conta com uma equipe unida no estilo "família Scolari", a França se encontra em plena ascensão na Copa. Depois de uma primeira fase discreta em que só conquistou a classificação na última rodada, encontrou seu jogo no esquema 4-5-1, com Henry isolado na frente.

O sólido meio-campo formado por Makelele, Vieira, Malouda, Ribéry e Zidane, que despertou seu futebol na etapa de mata-mata, controlou a Espanha durante o segundo tempo das oitavas e o Brasil durante praticamente todo o jogo das quartas.

Com a formação, que o técnico Raymond Domenech deve manter, só falta o futebol de Thierry Henry aflorar, já que o atacante, apesar de marcar o gol diante dos brasileiros, ainda não mostrou o futebol que o consagrou como o melhor jogador do futebol inglês da última temporada.

Os "Bleus", que não jogarão de azul, mas de branco, buscam ainda vingar a derrota sofrida pelo técnico Raymond Domenech com a seleção olímpica diante de Portugal. Em 2003, os portugueses venceram partida decisiva nos pênaltis e asseguraram vaga nos Jogos de Atenas, mandando Domenech para casa. Daquele time, o técnico francês reencontrará Cristiano Ronaldo, Helder Postiga, Tiago, Hugo Viana e Ricardo Costa na partida desta quarta.

PORTUGAL
Ricardo; Miguel, Fernando Meira, Ricardo Carvalho e Nuno Valente; Costinha, Maniche, Figo, Deco e Cristiano Ronaldo; Pauleta
Técnico: Luiz Felipe Scolari.

FRANÇA
Barthez; Sagnol, Thuram, Gallas e Abidal; Makelele, Vieira, Ribéry, Zidane e Malouda; Henry
Técnico: Raymond Domenech

Data: 05/07/2006, quarta-feira, às 16h
Local: Estádio Allianz-Arena, em Munique
Árbitro: Jorge Larrionda (URU)
Auxiliares: Walter Rial (URU) e Pablo Fandiño (URU)

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