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08/05/2006 - 09h35

Seleção de Angola garimpa talentos em Portugal

Por Mark Gleeson Da Reuters Em Luanda (Angola)
Em cima da mesa de madeira escura do secretário-geral da Federação Angola de Futebol, no complexo esportivo Cidadela, em Luanda, há uma cópia do guia da pré-temporada da liga portuguesa, com diversas páginas marcadas.

O livro colorido, publicado anualmente pelo jornal A Bola e chamado "Cadernos," tornou-se o manual das aspirações da seleção de Angola para a Copa do Mundo da Alemanha.

O livro permitiu que diversos técnicos e dirigentes angolanos encontrassem jogadores com conexões com seu país, mas que estão atuando na antiga força colonial. Estes atletas adicionam mais força à seleção angolana, conhecida como os "Palancas Negras" -- ou "Antílopes Negros."

Portugal, que ironicamente encontra os angolanos no seu primeiro jogo da Copa do Mundo, em Colônia, no dia 11 de junho, tem uma ligação de 500 anos com Angola e deixou o país em 1975, ano de sua independência.

Com isso vieram uma guerra civil brutal e a saída em massa de descendentes de colonos portugueses, que voltaram para a Europa.

Angola encontrou nessas famílias uma fonte estável de jogadores de qualidade. Poucos deles têm qualquer ligação com o país, a não ser o fato de ter nascido lá e as memórias dos pais.

POLÍTICA OFICIAL

Há pouco mais de 10 anos, quando Angola classificou-se pela primeira vez para a Copa Africana de Nações, o técnico Carlos Alhinho viajou a Lisboa e ofereceu para jogadores portugueses nascidos em Angola fazerem testes para atuar na seleção.

Isso deu início à política oficial da Federação Angolana de Futebol de procurar pelo mundo inteiro jogadores ligados ao país.

O próprio Alhinho, que jogou no meio-campo do Benfica, do FC Porto e da seleção portuguesa, vem de colônias portuguesas. Ele nasceu nas ilha de Cabo Verde e sabe que pode encontrar preciosidades nos antigos territórios portugueses.

Na Copa Africana de 1996, Angola recebeu o reforço dos irmãos Walter and Wilson Novo Estrela e de Rui Barbosa, que jogava no obscuro Taifa, da segunda divisão portuguesa.

Desde então uma série de jogadores portugueses vem aproveitando a ascendência angolana e recebendo uma chance de fazer carreira na seleção do país do sul da África.

Muitos deles foram encontrados nas páginas do catálogo da pré-temporada. Diversos dirigentes procuram jogadores com elos com Angola, averiguam datas de nascimento e fotos em busca de dicas.

Jogadores da seleção angolana que atuam em Portugal também participam da descoberta de jogadores com históricos similares.

MENTALIDADE DIFERENTE

O zagueiro Marco Abreu, por exemplo, foi recomendado para o técnico da seleção, Luis Oliveira Gonçalves, por um ex-companheiro de equipe.

Marco Abreu esteve em Angola pela última vez quando era bebê, mas tem boa chance de integrar a seleção na Copa da Alemanha, depois de ter impressionado na Copa Africana, realizada no Egito, em janeiro.

"É tão diferente, tão mais calmo e com uma mentalidade diferente", disse Abreu sobre a seleção de Angola, durante entrevista com a Reuters neste ano, no Cairo.

O meia Figueiredo e o goleiro João Ricardo representam bem o garimpo angolano. Há alguns anos eles nem sequer sonhariam em participar de uma Copa do Mundo.

Figueiredo, apesar de nunca ter atuado na liga principal de Portugal, tornou-se herói em Angola devido à garra no meio-campo e aos passes que geraram gols importantes.

A primeira proposta que recebeu para jogar em Angola foi em 2003, do técnico da seleção nacional, Ismael Kurtz (nascido no Brasil), depois que seu perfil mostrou que era nascido em Luanda.

João Ricardo também deu alguma consistência ao gol de Angola, apesar de, aos 36 anos, não poder mais conseguir um contrato em Portugal.

Ambos participaram das eliminatórias para a Copa do Mundo no ano passado e deverão ser titulares na Alemanha.

A mais recente entrada na lista dos expatriados é o zagueiro do FC Porto Pedro Emanuel, que em fevereiro concordou em jogar por Angola, quando tornou-se óbvio que não teria chance de atuar na seleção portuguesa.

Ele estava no Porto que ganhou a Copa dos Campeões de 2004 e a Copa da UEFA um ano antes, o que lhe dá potencial para ser o maior herói surgido das páginas de história da liga portuguesa.

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