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18/06/2006 - 13h56

Angolanos, com seus 'apelidos oficiais', tentam vaga nas oitavas

Das agências internacionais
Em Celle (Alemanha)
A seleção angolana de futebol chega à última rodada da primeira fase com chances de se classificar às oitavas-de-final do Mundial. Para isso, precisa vencer o Irã e torcer por uma derrota do México frente a Portugal, de modo que a segunda vaga seria decidida entre angonalos e mexicanos no critério do saldo de gols.

AFP

Locô, na estréia contra Portugal,
com seu corte peculiar de cabelo

Quem vir novamente o titular da lateral-direita Locô entrar em campo pela seleção angolana, de imediato poderá fazer uma associação entre seu apelido a uma suposta insanidade do atleta jogando futebol. A impressão é reforçada pelo corte de cabelo do jogador, com a cabeça toda raspada e apenas algumas franjas encaracoladas cobrindo parte da testa.

Mas, na realidade, a origem do apelido de Locô é muito mais comportada e remete a quando Manuel Antonio Cange tinha apenas nove anos de idade e jogava bola em Sambizanga, distrito operário de Luanda, capital de Angola.

"As outras crianças diziam que eu jogava ao estilo do atacante do Paris Saint-Germain Patrice Loko", conta o lateral angolano. "A partir daí, toda a vizinhança começou a me chamar de Locô e o nome pegou. Tornou-se natural", lembra.

Além do lateral, outro atleta da seleção angolana que deve seu apelido a um atleta francês é o goleiro reserva Luis Mamona João, o Lamá, que se tornou conhecido assim por sua admiração pelo goleiro Bernard Lama, campeão do mundo pela França em 1998, como reserva do arqueiro Barthez.

O goleiro de Angola conta que quando foi levado para um teste no Petro de Luanda, clube em que joga até hoje, foi apresentado como Lamá porque "gostava muito dele". O reserva de João Ricardo na seleção angolana diz que "gosta de ser chamado assim, pois me faz forte. Quando você usa o nome de alguém que é bom no que faz, você tem de ser bom também".

Assim como no Brasil e em Portugal, o povo angolano, que também tem o português como idioma oficial, adota os apelidos no tratamento entre seus cidadãos como um de seus traços culturais.

"É um costume realmente natural no nosso país, especialmente nos bairros mais pobres", explica o atacante Arsenio Cabungula, mais conhecido por Love. No caso, não se trata de uma homenagem ao atacante brasileiro Vagner Love, que atuou no Palmeiras e atualmente joga no futebol russo pelo CSKA.

"As pessoas sempre me chamaram de Amor", conta Love. "Depois, um amigo que falava inglês passou a me chamar de Love e meu apelido se tornou esse. Hoje, todos me chamam assim e gosto muito".

Elefantes e Jambas
A origem do apelido de Jamba, zagueiro da seleção, explica uma tradição cultural bastante específica do país. Jamba significa "Elefante" em Umbundu, uma língua utilizada na região Sul de Angola. O jogador explica que, nesta região, quando nascem crianças gêmeas, "o garoto tem de receber o nome de Jamba e a menina tem de ser chamada de Cassinda".

Graças a essa tradição, o zagueiro diz que em Benguela, província angolana da região Sul, "80% dos garotos gêmeos são chamados de Jamba. Em outras partes de Angola, alguns recebem o nome de Adam e Eva e os Bakongo [um grupo étnico do Norte de Angola] chamam os gêmeos de Simba e Nzogi".

Como a maioria dos jogadores é conhecida por seus apelidos, a torcida passou a cobrar que os atletas passassem a jogar na seleção utilizando os apelidos nas costas das camisas, e não os nomes de batismo. No Mundial, é assim que Locô, Love, Jamba e os demais companheiros da seleção estão atuando.

Em Angola, a adoção de apelidos é utilizada até para o presidente do país, José Eduardo dos Santos, que é popularmente conhecido por "Zedu", assim como o primeiro-ministro, chamado por "Nando" com mais freqüência do que por seu nome de batismo: Fernando da Piedade Dias dos Santos.

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